Jogo de espelho

Alexandre Takara Escritor e professor de ...

...Sou eu! Sou eu! ...grita o menino de rua, emocionado.

Ele se identifica com a escultura de Ricardo Amadasi – Menino de Rua. E se aninha nos braços da obra. Reconhece-se na, é seu retrato. E do contemplá-la, é a si que contempla. E do acariciar aquele rosto, é o seu rosto que acaricia. Um jogo de espelho: longo e afetuoso. E J.B. Ferreira, repórter fotográfico do (Diário do Grande ABC), imortaliza esse instante. Amadasi e Ferreira recriam o mito de Narciso o amor que o garoto tem pela imagem de si mesmo. E nesta relação especular, ele esquece por um momento, o seu drama – um anônimo, sem visibilidade social e permanentemente humilhado. E sem direito, à cidade. Não participa de trocas sociais, econômicas e políticas. Sua palavra é envergonhada, mal balbuciada, de quem sente vergonha e medo. Não tem nome nem lugar. Perambula pelos espaços públicos. E, como não possui casa onde morar, não deixa marcas de sua passagem dos coração dos homens. Não fex história porque não acumulou tempo de experiências com seus semelhantes. Para ele, a geografia não se fez história. Um desenraizado.

A arte de Amadasi emerge da vida, retrata a vida, de modo a permitir afirmar que a vida penetra na sua arte e sua arte age na vida. E o caso do menino de Rua. Do afluir e contemplar sua arte, o garoto convoca e mobiliza os cidadãos a refletirem sobre a função da arte. Alias, não sabe disso, mas é isso que provoca.

Trecho do texto de Alexandre Takara

Consulte 7 anos – Cidades – Culturas - ivraria Alpharrabio, dezembro de 1999

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