A escultura de Amadasi e a poesia de Dalila Teles Veras Ricardo Alfaya

10. De fato, trata-se de um humanismo pleno, que nitidamente se inspira na antigüidade clássica, na escultura grega, no “mens sana in corpore sano”, de Juvenal, na busca do equilíbrio, no desafio dos limites impostos, não apenas pela realidade social, mas num sentido mais sutil e profundo, em relação à própria condição humana considerada em si mesma. Amadasi declara que iniciou a sua obra como surrealista. Ela enfatiza a importância do sonho e do ideal sobre a realidade. A influência do surrealismo e a força do sonho se tornam uma constante em suas peças. Entretanto, estabelece-se um conflito entre o sonho e a realidade. Cruel, a realidade vai gerando seus “natimortos”. Porém, os que sobrevivem, ainda que marcados a ferro, sangrados, mutilados, lutam dolorosamente pela afirmação do seu sonho.

12. Assim, embora muitas vezes se apresentam mutiladas, fragmentadas, em carne viva, as figuras de Amadasi estão sempre em movimento. Esse movimento ora se mostra ascendente, ora descendente, pois nem sempre é possível sair-se vitorioso no confronto entre o sonho e os tantos quadrados, arestas, grades, cadeados e amarras. Em “Mergulho” (figura 7), uma das mais extasiantes imagens de Amadasi, na qual um homem dilacerado, sangrando, elegantemente se projeta num cubo, Alexandre Takara vê um mergulho na morte: “(....) o cubo representa na obra de Amadasi, o fundo do poço da miséria material e moral (...)”.

13. Porém, o que fascina em Amadasi é a quase “dolorosa serenidade”, a elegância atlética, o bailado olímpico com que seus imponentes e musculosos personagens enfrentam o seu combate. Mesmo o mais pobre e miserável dos homens será retratado não como um magro famélico ser. Ainda quando “cai”, a queda não ocorre de um jeito qualquer. Cai com harmonia, com beleza, sucumbe muitas vezes, sim. Porém , sucumbe com Arte. A obra de Amadasi parece querer comunicar-nos que a arte é ainda a última forma de beleza, grandiosidade e de dignidade possíveis ao homem. Ou talvez melhor: que cabe à arte o irrecusável papel de contribuir conscientemente na luta para que se desenvolva a homens e mulheres a dignidade perdida. Mas do que um pedido, essa é uma exigência que se encarna na imagem de peculiar nobreza da “Mater dolorosa” (figura 8).

Consulte Nozarte@aol.com – Rio de Janeiro/RJ – julho de 2003.

Reprodução dos textos 10,12 e 13 da matéria, de olho vivo na arte

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